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CÓDI
CE: O TEM
PO EM SUS
PENSÃO



PROJETO ELABORADO COMO PESQUISA DE MESTRADO

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RESUMO
_ Refletindo sobre uma sensação de leveza e dilatação da passagem temporal, a pesquisa elabora a expressão “tempo suspenso” e analisa de que maneira essa singular percepção pode ser transmutada em códices. Para sua compreensão, dialoga sobretudo com duas produções artísticas: Em busca do tempo perdido (1908–1922), de Marcel Proust, e A última tempestade (1991), de Peter Greenaway. A primeira foi escolhida por discutir uma sensação como estopim para a elaboração de uma poética. A segunda, por colocar o códice artesanal como receptáculo de um assunto. O campo formado pelas duas referências aglutina a temática levantada e representa princípios geradores e norteadores no desenvolvimento de uma sintaxe visual composta de referências históricas e formais da estrutura do códice. Ademais, para a compreensão da dilatação do tempo foram analisadas obras clássicas japonesas onde se encontram características próprias dos termos wabi-sabi e ma. Elas são a representação estética de um método no qual a práxis poética é um momento decisivo na estruturação do objeto final. A partir dos diálogos estabelecidos, foram realizados sete livros de artista, chamados de códices, cada um apresentado separadamente em capítulos formados por registros fotográficos e textos contextualizadores dos assuntos elaborados.

MONOGRAFIA
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_ 2016





... levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente às vicissitudes da vida, inofensivos seus desastres, ilusória sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou, antes, essa essência não estava em mim, era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la? Bebo um segundo gole que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. É claro que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intato à minha disposição, para um esclarecimento decisivo. Deponho a taça e volto-me para meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não apenas explorar: criar. Está diante de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode dar realidade e fazer entrar em sua luz.

Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido : No caminho de Swann, 71–72.






Mas naquela manhã de viagem, a interrupção da rotina de minha existência, a mudança de lugar e de hora tornaram indispensável a presença de minhas faculdades. Meu hábito, que era sedentário e nada madrugador, estava ausente, e todas as minhas faculdades haviam acorrido para substituí-lo, rivalizando entre si em zelo – elevando-se todas, como vagas, a um mesmo nível inacostumado – da mais baixa à mais nobre, da respiração, da fome e da circulação sanguínea à sensibilidade e à imaginação.

Marcel Proust. Em Busca do Tempo Perdido : À sombra das raparigas em flor, 282.






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